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Dá licença

É um prazer, uma comemoração dos neurônios, quando me dou conta de uma coisa. Como se tivesse chegado a minha vez de dar um flagrante nas coisas da vida que, certamente, pessoas mais atentas se deram conta antes.


Quando ganhei um trenzinho a pilha no Natal de 1968 (eu tinha cinco anos), eu queria ter visto o brilho dos meus olhos. Aquilo que os adultos chamam de alma deve existir e deve ter mudado o brilho de meus olhos quando ganhei aquele presente. Não me lembro quem o colocou para funcionar, mas lembro das vozes misturadas do meu pai, da minha mãe e da minha avó que pronunciavam o meu nome e diziam que o Papai Noel tinha trazido aquele trenzinho pra mim. O trenzinho andava no assoalho da sala e fazia um som que imitava o barulho das locomotivas cruzando as montanhas do Arizona e tinha um sino que não se mexia mas imitava as badaladas num blim-blom intermitente. O trenzinho fazia seu percurso aleatório no chão da sala, dando cabeçadas no sofá, nos pés da mesa e na árvore de natal. Eu não sabia o que pensar porque nunca tinha visto um trem, mas os adultos me perguntavam “gostou do trenzinho”? Então achei que o nome do objeto bonito e sonoro era “trenzinho”. Depois de alguns aniversários, me dei conta de que o sufixo “inho” era usado pelos adultos para demonstrar carinho por objetos e pessoas. Na escola o nome daquilo era “diminutivo”.


Um dia meu pai chegou em casa com uma televisão nova. Minha mãe adorava os filmes de faroeste. Hoje estou com 56 anos (faço 57 amanhã) e faz tempo que me dei conta de que adoro filmes de faroeste porque eles faziam bem à minha mãe (que ainda está viva, firme e forte com seus 77 anos). Foi num desses filmes na TV nova que eu vi uma locomotiva igual ao meu presente de natal. Eu já era quase adolescente quando me dei conta de que os filmes eram dublados. E quando fiquei adulto, não no início, mas depois que li alguns livros sobre globalização, culturas e colonizações, me dei conta de que além dos filmes dublados os prazeres da vida eram dublados também. A locomotiva de um filme americano a gente comprava nas lojas e quando o futuro chegar, vamos comprar bonequinhos dos personagens do Star Wars ou comer tacos mexicanos na Europa. Globalização e dublagem de prazeres.


Entre locomotivas no deserto e guerras nas estrelas, o mundo dublou suas guerras desde que Deus ficou de mal com Adão e Eva. E isso faz mais ou menos seis mil anos com base nos cálculos de um pesquisador chamado Ussher. Ele pesquisava as histórias na Bíblia e ficou de olho nos relatos que faziam menções à determinada época. Com base naquelas histórias, concluiu que Adão e Eva foram expulsos do paraíso no dia 10 de novembro de 4004 a.C. Depois, Deus ficou de mal com a humanidade e, segundo as contas do pesquisador, o dilúvio aconteceu em 2358 a.C. Mas, se Raul Seixas nasceu há dez mil anos atrás, essas contas do pesquisador ficam comprometidas. Brincadeiras à parte, Ussher se interessou em medir o tempo da criação do mundo a partir das referências bíblicas. É uma ideia dentre tantas que surgem na mente humana, levadas a cabo com métodos acadêmicos ou não. Raul Seixas, numa hora dessas, deve ser “jedi” lá nas galáxias.


Parece que as guerras sempre existiram. No reino animal dos jacarés, leões e hipopótamos há uma luta pela sobrevivência. Os humanos inventaram a pólvora e a bomba atômica. Quem tiver mais armas pode fazer ameaças, pode invadir territórios. Aqui, na América do Sul, o trem foi trazido pelas mãos de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, no século XIX. Trezentos anos antes disso, espanhóis e portugueses chegaram aqui com suas armas e seus crucifixos. Os nativos que viviam entre o Alasca e a Patagônia sabiam caçar e pescar. Nunca tinham visto homens que vieram pelo mar com aquelas roupas e aquelas armas. Foi assim que os impérios pré-colombianos dos Incas, Maias e Astecas viraram pó. Foram varridos pra debaixo do tapete com suas cinzas, seus costumes e suas crenças em diferentes divindades. Por aqui, nos protegia Tupã. Centenas de idiomas nativos foram reduzidos a cinco idiomas europeus: o francês está numa parte do Canadá e numa Guiana na região amazônica da América do Sul; o holandês no Suriname, vizinho à Guiana Francesa; o inglês noutra Guiana e na América do Norte; o espanhol nas Américas do Norte, Central e Sul; e o português no Brasil. Foram precisos toneladas de pólvora e crucifixos no alto das igrejas para fazerem desaparecer diferentes culturas. Quem tem arma cuida das coisas físicas como territórios e corpos amontoados; quem tem crucifixo cuida do monopólio das almas. Ao ler os trabalhos de Norbert Elias, que usou a expressão “processo civilizatório” num tom de crítica às invasões, guerras e colonizações, eu já era adulto e me dei conta do quanto eu era atrasado perante a realidade. Mas sempre é tempo de crescer, de deixar o Papai Noel feliz lá na infância, de deixar que o céu e o inferno se entendam sozinhos para dar passagem à adolescência e entrar na fase adulta com novos desafios para se dar conta de mais coisas.


Hoje mesmo, aliás, quando eu acordei liguei o computador para falar dos acentos que existem na língua portuguesa, assim como noutros idiomas. Acabei escrevendo cinco parágrafos antes de chegar até aqui. Talvez porque no fundo, além das guerras barulhentas com canhões e bombas atômicas, tropas em locomotivas ou aviões de caça, eu tenha acordado com a percepção de uma guerra silenciosa (que não vai matar ninguém), uma guerra não-declarada contra os acentos da língua portuguesa.


Eu fui uma criança sem computador porque não tinha computador para se comprar. A primeira vez que vi um computador foi na extinta empresa de aviação gaúcha, a VARIG. Meu pai trabalhava lá, numa filial do Rio de Janeiro. Era operador de telecomunicações. Eu era adolescente quando meu pai me levou na sua sala, um lugar amplo do tamanho de um refeitório. Do lado de fora fazia quarenta graus, do lado de dentro cinquenta graus abaixo de zero (essa foi a minha sensação com o choque térmico). Depois de me mostrar como era o seu trabalho e dizer aos amigos “esse aqui é o mais velho”, ele apontou para uma parede inteira onde tinha uma máquina parecida com um armário de ponta a ponta com luzes que piscavam, fitas magnéticas que giravam e uma quantidade infinita de botões e números ao redor. Era um “mainframe”, o computador. A primeira vez que eu vi um computador de mesa (computador pessoal, PC de “personal computer”), foi em 1995 no Centro de Medicina Aeroespacial. Eu trabalhava lá como técnico de enfermagem e era responsável por fazer audiometria em pilotos civis da Varig, Transbrasil, Vasp, TAM, etc. e nos pilotos militares da Força Aérea. Mas o computador não chegou na minha sala. Ele chegou na sala do Oliveira, o cara da informática, quando criaram uma seção de informática porque o mundo estava mudando e as máquinas de datilografar seriam, pouco a pouco, substituídas por computadores de mesa. Depois disso veio a internet, inventaram o mp3, os vinis e CDs foram desaparecendo, a música ficou grátis no youtube e, como nos filmes de faroeste americano, não apenas as locomotivas de brinquedo entraram nos lares das antigas gerações como o método “civilizatório” moderno adentrou nos lares das gerações contemporâneas, com programas de computador criados originalmente em inglês. Onde quero chegar? Nos acentos de nossa língua que, dos programas de Editores de Texto ao WhatsApp, estão ameaçados de extinção por causa da pólvora. Digo, a pólvora da pressa. Com a internet, o tempo ficou mais curto. Ou será impressão de um pré-idoso? Reconheço que os idosos (e falo sem ter nenhuma experiência nisso, porque nunca fui idoso) parecem ter pressa. E deve haver algum fundamento, porque a ampulheta tem mais areia embaixo do que em cima. Imagino que os idosos percebam que o tempo está encolhendo e que seus papéis vão ficar na gaveta até que alguém os jogue fora; seus objetos, sua coleção particular disso e daquilo serão vendidos num brechó; aquela caneca de tantos cafés e tantas conversas vai para a lata do lixo embrulhada num saco de plástico sem importância; aquela caixinha de música que enfeitava o móvel para decorar o ambiente vai ter o mesmo destino da caneca; aquele relógio de pulso que foi guardado para deixar de herança, alguém vai se livrar dele, pois as gerações de hoje só vêem as horas no celular, jogam cartas no celular, apostam corrida de carrinho no celular, dão tiros contra o inimigo no celular, lêem livros e notícias no celular e escrevem, sem acento, no celular. A internet é um ponteiro que marca outro tempo, é uma flecha que acerta no coração de muitas culturas.


Não é uma queixa. Eu só não queria ler as palavras sem acento. O que você prefere: coracao de mae ou coração de mãe? Fútil ou futil? Amanhã ou amanha? Eu escrevo no celular (e muitas vezes às pressas) e as palavras que levam acento funcionam como quebra-molas. Eu não vou passar direto. Eu quero valorizar o tempo das palavras. Os acentos são poéticos, são aquelas luzes que piscam no texto como no meu trenzinho de criança. Eu guardo aquele trenzinho até hoje. Está na minha estante de livros. Amanhã, 21 de fevereiro, faço 57 anos e num dia qualquer vou desaparecer. Espero que seja num dia nublado. Quem ficar no planeta, não vendam os acentos de nossa língua portuguesa ao brechó da comunicação. A pressa é inimiga da perfeição. Para uma comunicação bem feita, é preciso se respeitar as pessoas (obviamente) e dar uma oportunidade à língua escrita para que seja bem compreendida, melhor interpretada e, por que não, mais bonita com um circunflexo ali, um til aqui. Aliás: “é papel” tem um significado “e papel” tem outro; “vêm” diz respeito a mais de uma pessoa e “vem” refere-se a apenas uma; “por” é preposição, “pôr” é verbo; “manha” é diferente de “manhã”. Eu contei quantas palavras têm acento na língua portuguesa, você não vai acreditar. Mas acredite no prejuízo da comunicação com o desmanche das palavras como fazem com os carros no ferro-velho. A extinção intencional dos acentos das palavras substitui inclusive o bom gosto na comunicação pelo risco de uma mensagem mal interpretada. Uma dúvida pode virar uma dívida, quem duvida?